Por AlvoCom
Morro Grande em nova fase: Fundação Florestal apresenta a gestão do parque em Cotia
A reunião do Conselho Municipal de Meio Ambiente e Agropecuária (CMAA) de Cotia marcou o primeiro encontro público entre a Fundação Florestal e representantes da sociedade civil após a criação do Parque Estadual do Morro Grande.
Apresentação da Fundação Florestal no CMAA Cotia marcou o início da nova etapa administrativa da unidade, com discussões sobre uso público, zona de amortecimento, Sabesp, Conselho Consultivo e a Vila do DAE. A reunião do Conselho Municipal de Meio Ambiente e Agropecuária (CMAA) de Cotia marcou o primeiro encontro público entre a Fundação Florestal e representantes da sociedade civil após a criação do Parque Estadual do Morro Grande.
Conduzida pelo gerente regional Josenei Gabriel Cará e pelo gestor da unidade, Waldnir Gomes Moreira, a apresentação trouxe esclarecimentos sobre o papel da instituição, o funcionamento das unidades de conservação e os primeiros movimentos da nova fase administrativa da área.
Mais do que uma exposição técnica, o encontro revelou um cenário já esperado: expectativas, dúvidas e o início de um processo que tende a reorganizar a relação entre o território do Morro Grande e o município.
Proteção integral como eixo estruturante
Logo na abertura, a Fundação Florestal reforçou a diretriz que orientará todas as decisões futuras.
“Nenhuma iniciativa poderá comprometer as características ambientais que justificaram a criação do parque”, destacou Josenei.
A fala sintetiza o regime jurídico do parque, categoria de proteção integral prevista no Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC). Diferentemente de parques urbanos, o objetivo prioritário é a conservação dos ecossistemas e, no caso específico do Morro Grande, a proteção dos mananciais que integram o sistema produtor de água.
Com aproximadamente 11 mil hectares, a unidade passa a figurar entre as maiores áreas florestais inseridas em território urbano no país.
Foi nesse momento que Josenei arrancou risadas coletivas ao classificar o Morro Grande como a maior floresta em território urbano:
“Chupa Cantareira”, brincou.
Uso público: entre expectativa e cautela técnica
A possibilidade de ampliação do acesso ao parque surgiu como um dos pontos mais debatidos.
Representantes de grupos de ciclistas e frequentadores históricos manifestaram preocupação quanto à manutenção de eventuais restrições. Em resposta, a Fundação Florestal adotou um discurso de abertura gradual e controlada.
“O espaço bem utilizado afasta o mau uso”, afirmou Josenei.
O gestor Waldnir Gomes Moreira ressaltou que a visitação será sempre subordinada a critérios técnicos e de segurança.
“Se recebermos um alerta de chuva iminente, por exemplo, nós vamos fechar imediatamente. Não se trata de restrição, mas de proteção aos usuários.”
Zona de Amortecimento entra no horizonte de planejamento
A definição da Zona de Amortecimento (ZA), instrumento obrigatório para parques estaduais, também foi abordada.
Segundo a Fundação Florestal, o tema será tratado no Plano de Manejo — documento técnico que estabelecerá o zoneamento interno e as diretrizes para o entorno da unidade.
A instituição destacou que atividades já licenciadas no entorno não sofrem cancelamento automático, embora novos empreendimentos ou ampliações passem a ser analisados sob critérios mais rigorosos de compatibilidade ambiental.
Sabesp: ator estrutural na nova configuração do território
Embora a reunião tivesse como foco principal a Fundação Florestal, a Sabesp esteve presente com três representantes e acabou ocupando papel recorrente nas discussões.
A companhia pode ser considerada a proprietária da área onde hoje está o Parque Estadual do Morro Grande e, historicamente, desempenhou papel central na proteção operacional do território vinculado ao sistema produtor de água.
“Logo no começo, foi realizada uma reunião com a Sabesp, que por décadas foi responsável pelo território e pela proteção da qualidade do corpo hídrico”, destacou Waldnir Gomes Moreira.
A nova configuração estabelece uma convivência entre regimes institucionais distintos: a gestão ambiental sob responsabilidade da Fundação Florestal e a operação do sistema produtor de água, classificado como infraestrutura essencial.
“Temos convênio com a Sabesp na Cantareira, há anos, muito bem estabelecido. Aqui não deve ser diferente”, afirmou Josenei.
RPPN e condicionantes ambientais
A Sabesp também surgiu no debate a partir de questionamentos sobre compromissos assumidos no processo de licenciamento ambiental do Sistema Produtor São Lourenço.
Entre eles, a criação de uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), originalmente vinculada ao território do Morro Grande como condicionante para obtenção da Licença de Operação emitida pela CETESB.
Com a área agora enquadrada como Parque Estadual — categoria de proteção integral — o instrumento da RPPN torna-se juridicamente incompatível dentro dos limites da unidade.
A situação não implica o desaparecimento da obrigação ambiental assumida no licenciamento, mas aponta para a necessidade de readequação formal da medida compensatória junto ao órgão ambiental.
A discussão sinaliza um dos diversos pontos técnicos que deverão ser enfrentados no âmbito do Plano de Manejo e das futuras instâncias de diálogo institucional.
Vila do DAE: patrimônio histórico no centro da conversa
A Vila Operária do DAE, conjunto histórico vinculado à memória do saneamento paulista e atualmente em processo de tombamento municipal, ganhou destaque durante a reunião.
Representantes do projeto Ecomuseu Morro Grande defenderam a integração entre patrimônio ambiental e patrimônio histórico-cultural.
“Não custa nada unirmos patrimônio ambiental, patrimônio cultural e histórico”, afirmou a professora e pesquisadora Cristina Soutelo.
Embora situada fora dos limites formais do parque, a Fundação Florestal reconheceu a relevância estratégica da área.
“Não significa que ela esteja fora das nossas preocupações. Ela integra o entorno e possui interesse histórico”, afirmou Gomes.
“Eu não vejo uma preocupação. Eu vejo uma oportunidade de ter um fórum de discussão”, completou Josenei.
Conselho Consultivo e gestão compartilhada
Tema central da apresentação, o processo de formação do Conselho Consultivo foi detalhado pela Fundação Florestal.
O colegiado deverá ser paritário, equilibrando representantes do poder público e da sociedade civil. Sua formação ocorrerá por meio de edital público, seguido de habilitação, eleição e posse.
“O próprio grupo da sociedade civil decide a distribuição das cadeiras”, explicou Gomes.
Com mandato de dois anos, o Conselho atuará como instância de acompanhamento, diálogo institucional e registro das decisões relacionadas à gestão do parque.
“Não farei a gestão sozinho”, enfatizou o gestor.
Um território em transição
Mais do que uma apresentação institucional, a reunião do CMAA sinalizou o início de uma nova etapa na história do Morro Grande.
O território, agora formalmente enquadrado como parque estadual, entra em um ciclo que combina conservação ambiental, uso público controlado e construção coletiva.
A transição não elimina tensões — elas tendem a se reorganizar sob novas bases jurídicas e administrativas.
Mas um ponto parece já consolidado.
O Morro Grande deixa de ser apenas uma área protegida. Passa a ser, também, um espaço de governança compartilhada.
FONTE SITE DA GRANJA



